BLOCO DA LAJE • “brincadeira é forma afetiva de ocupar a cidade”

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Uma vontade enorme de brincar pelas ruas de Porto Alegre fez surgir, há sete anos, o Bloco da Laje. A iniciativa partiu de um grupo de diversos artistas (muitos vindos do teatro) com o desejo comum de experimentar um carnaval dionisíaco. Hoje, o coletivo se reúne em lugares públicos para ensaiar, criar músicas e, assim, resgatar a fantasia e o ritual comunitário da festa. Conversamos com Thiago Lázeri, um dos integrantes-fundadores, sobre o carnaval como experiência compartilhada.

• O que é o Bloco da Laje?

É difícil buscar uma definição. Na essência, somos um bloco que há sete anos brinca pelas ruas da cidade – e o Bloco da Laje é fruto de nossos desejos e de nossas indignações. O carnaval é para nós, ao mesmo tempo, uma celebração do afeto e espaço para criticarmos o que nos massacra. Então é muito comum encontrar, no nosso repertório, questionamentos.

• Qual é o papel da brincadeira e do carnaval nos dias de hoje?

A brincadeira é a coisa mais séria nesse mundo. Não só no carnaval: os espaços lúdicos estão em falta, olhar para o outro está em falta. A sociedade nos empurra para o individualismo e  vivemos o modelo que valoriza você consumir e se trancar em casa, ficar em frente a uma tela, sozinho, imerso num mundo paralelo. Brincar pressupõe participar de uma brincadeira. E é muito melhor brincar em grupo, brincar com o outro, descobrir o outro, descobrir que não estamos sós. A brincadeira, nesse sentido, é um ato revolucionário.

• Como é a relação do Bloco da Laje com a cidade – e com quem mora nela?

O Bloco da Laje é uma bloco da cidade. Começamos tocando na Cidade Baixa, mas percebemos que poderíamos ganhar mais fazendo intercâmbios com outros bairros e descobrindo novas geografias. Isso nos deu um sentido itinerante e nos enriqueceu artisticamente. Quanto aos porto-alegrenses, bem, trata-se de uma massa heterogênea demais. Tem muitos que nos gostam e alguns que torcem o nariz para o Carnaval de forma geral, incluindo a gente. Faz parte.

• Um sonho para o futuro de Porto Alegre.

Atualmente vemos um crescente desmonte de aparelhos importantes na cidade. A falta de atenção e de apoio à cultura talvez seja o mais simbólico para nós. Mas, de um modo geral, o descaso com a população de rua, a fechamento de locais de acolhimento a violência contra mulher, o racismo, a LGBTIfobia, a intolerância religiosa, o descaso com o professores, tudo isso vai esmagando a cidade e tornando-a cada vez menos humana, menos plural, menos diversa. A arte tem um papel muito importante dentro desse contexto; tem um papel de reflexão e de respiro. Nosso sonho é que esse papel seja valorizado e que os espaços públicos sejam retomados pela população, cada vez mais.

A gente quer botar o nosso Bloco da Laje na rua e a gente só para depois que botar o nosso Bloco na lua. A gente quer voar.

 

// Para sair com o Bloco em 2018: basta preparar o visual nas cores azul, vermelho e amarelo. O cortejo oficial sai domingo, dia 28/1. E todas as informações sobre horários e localização podem ser acompanhadas na página do Facebook e no perfil do @blocodalaje no Instagram.

// Para além dos dias de carnaval: o Bloco da Laje desenvolve oficinas de preparação corporal e de bateria. Também realiza um seminário anual – que está na quarta edição – para trocar conhecimentos sobre a festa popular. 

Fotos: Dani Berwanger e arquivo 

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