MPN Entrevista • CHIARA GADALETA, do Movimento EcoEra

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Chiara Gadaleta capitaneia, há quase uma década, o movimento EcoEra – uma ampla iniciativa em prol da sustentabilidade nos universos da moda, da beleza e do design. Prestes a inaugurar um portal on-line para conectar indivíduos, empresas e terceiro setor em torno do consumo consciente, ela percorre o Brasil em busca de formas positivas de fazer negócios; também utiliza conteúdo para mostrar como é possível ajudar o meio ambiente com atitudes práticas do dia a dia. A consultora (que vai participar de um bate-papo em Porto Alegre no sábado 25/11) falou com exclusividade ao Mapeando sobre esses e outros temas urgentes, como o upcycling:  

• Conte sobre o início – e as motivações – do Movimento EcoEra.  

Até a virada dos anos 2000, havia uma sensação de que a moda era um retrato do tempo, uma fotografia da época. Ao ver uma foto dos anos 1970, 80 ou 90 era possível saber exatamente onde se estava. Com a virada dos anos 2000, vieram a democratização e a globalização, de modo que a moda virou um mix. Também foi a chegada do fast fashion. Aumentou muito a quantidade de pessoas que podiam consumir, aumentou muito a produção. Criou-se um problema. No meu ponto de vista, porque perdemos a noção de tempo e espaço – você olhava uma foto e não sabia mais onde estava.

Também comecei a perceber que o planeta estava gritando, que as pessoas estavam gritando, a sociedade e o planeta pediam cuidados. A moda, no entanto, não falava nada. E assim se criou, pela primeira vez, um descompasso da moda com o seu tempo. Era hora de preocupação social e ambiental e, apesar disso, nem se falava de sustentabilidade no Brasil.

Como poderíamos olhar para a moda para que ela voltasse a ser uma fotografia do seu tempo? Então eu comecei a pesquisar. Foram viagens pelo seis biomas brasileiros. Comecei a entender e falar sobre sustentabilidade. Meu irmão morou muitos anos na China, na Europa e nos EUA, e me passou muitos inputs de como a moda estava revendo a cadeia de valor – cito aqui Alemanha, Dinamarca, Áustria e Inglaterra como lugares avançados nesse ponto. Sentia que o mercado daqui precisava fechar um ciclo e começar outro. Não dava mais para ficar alienado.

Em 2008, decidi que usaria a voz que tinha na área da comunicação, que era uma voz respeitada, para falar sobre questões urgentes da indústria. Tinha um compromisso com o mercado de moda – que me acolheu, me apoiou e me criou – além de bandeira, certezas, paixão e embasamentos comprovados. Estávamos falando de emissão de CO2, de trabalho escravo. Não se tratava de decisões sobre cores e estampas, mas de pessoas e de natureza. Eu estava buscando a verdade, que já era um caminho meu interno. Sou fascinada pela “verdade nua e crua”.

Naquele momento, ainda não era EcoEra, mas virou logo na sequência. Queria muito “ecoar”, então era muito mais “ecoar” do que “ecológico”. Mas também era ecológico, porque um dos 4 pilares da sustentabilidade é o ambiental. Existem os pilares ambiental, social, cultural e econômico. No Brasil, o cultural é muito importante e é muito importante falar dele o tempo todo. Existe uma dificuldade de integrar a cultura por aqui.

Criou-se um movimento do qual as pessoas queriam participar. Minha fala era ouvida. Comecei a mapear produtos para provar o que eu estava falando sobre reciclagem, orgânico, biodegradável, PET. Incubamos marcas e criamos junto com outras. O movimento foi crescendo. Já tinha coluna na Vogue, dava palestras e cursos. E então, há dois anos, começamos uma consultoria para grandes empresas. Demorou porque é uma mudança de mentalidade; também de comportamento, de agenda, de empresa. Estamos há um ano e meio debruçados sobre o portal EcoEra, mas de fato levou 10 anos para chegar até ele.

• Quando você percebeu que era preciso estreitar também a relação com os consumidores de moda?

Depois desse primeiro momento focado no produto, comecei a me inquietar sobre os processos: a quantidade de água consumida, a energia, a relação com o entorno – como aquele produto era feito. Fizemos uma série de ações, disseminando informações sobre sustentabilidade. Uma empresa começou a inspirar a outra e assim foi se criando um ambiente onde as informações e os exemplos existiam. O consumidor, cada vez mais exigente, passou a contribuir.

Queríamos encontrar o coração das iniciativas. Em 2015, lançamos o Prêmio EcoEra para colocar luz nas empresas como um todo. Foi muito importante porque aumentamos escopo e escala. Não falaríamos só com pequenas empresas ou com pequenos produtores, mas também com os grandes. Isso veio da necessidade de pensar em como o produto estava chegando na vida do consumidor e como uma empresa e seus produtos impactam o público de forma positiva.

Sempre fizemos muitos eventos (nossa primeira semana de moda aconteceu em 2013). Apresentamos vários projetos, incubamos várias marcas que estão no mercado agora. Mas entendemos que, para que a informação chegasse perto do consumidor, seria necessário um canal on-line, que pudesse ser realmente replicado com rapidez. Veio a ideia de um portal  onde o internauta conseguisse relacionar com os setores de moda, beleza, design e gastronomia.

O Portal EcoEra será lançado no dia 28.11 para a imprensa e no dia 29.11 para o Brasil inteiro. Vamos listar formas de impacto positivo, que vão desde como descartar resíduos até viajar de maneira responsável, passando por consumir com consciência, calcular a emissão de CO2, ocupar espaços makers e aumentar a vida útil das peças. Ou seja, um guia on-line sobre tudo que as pessoas querem saber e não sabem onde encontrar, uma ferramenta que dá acesso a um roteiro para o dia-a-dia.

A plataforma começa com uma listagem de 100 marcas que passaram por nossa seleção. As grandes empresas vão estar pertinho das pequenas. E nosso projeto para o futuro é ser um ambiente colaborativo onde uma marca vai poder usar da expertise da outra, onde uma vai poder usar o resíduo da outra, até mesmo a mão de obra.

 

• E o processo de upcycling? Como ele se conecta a esse cenário amplo que o EcoEra ajudou a mapear?

O upcycling é uma forma de dar valor maior ao que já está disponível. O que não é só ambientalmente correto, mas economicamente viável. Ou seja, existe um ativo econômico muito importante. Do ponto de vista estético, a peça upcycled é incrível porque aciona o mecanismo da criatividade – do qual a moda infelizmente não usufruiu tanto nos últimos tempos por conta do mercado de massa. É a famosa relação win-win, em que todo mundo ganha.

Com tudo isso na mesa, vamos precisar novamente acionar, educar, formar profissionais que usam a criatividade para resolver questões estéticas. Não tem uma cartilha no Google que ensine a resolver um processo de upcycling com um material que é só seu. No Brasil, somos muito criativos e temos muita sobra. O EcoEra tem dados de que no Bom Retiro, em São Paulo, são geradas mais de 20 toneladas de resíduo têxtil por dia. Impossível seguir desconsiderando o resíduo, o descarte, as sobras.

• Qual a sua visão sobre o futuro do segmento de moda sustentável?

Acho que não é um segmento. Estamos falando sobre práticas para diminuir os impactos negativos de uma indústria que está entre as três maiores poluentes do mundo. Precisamos  pensar em maneiras de produzir, de criar um novo relacionamento entre a cadeia de valor e fazer isso de maneira limpa, justa, revendo valores que foram esquecidos. Porque muito rapidamente se gerou uma escala imensa de produção. Será preciso que todo mundo se planeje, o que já está acontecendo. Muitas grandes empresas já abriram as suas agendas e criaram departamentos para isso. Ou seja, esperamos que o mecanismo que criamos fique em pé e se autoalimente – o portal já é resultado desse trabalho. Em 2018, vamos disponibilizar para o mercado relatórios e estatísticas para que seja possível ter metas.

 

• Depois de cruzar tantas vezes o Brasil, como você enxerga as iniciativas de Porto Alegre?

Porto Alegre é muito avant garde, tem um grupo pensando de forma organizada. Gosto muito da maneira como vocês pensam e como vocês se colocam. Tive contato com a Itiana Pasetti, da marca Revoada, ainda em 2008 e desde lá estamos em contato. E vejo que cada um tem seu papel na sustentabilidade. Não existe cartilha: o que funciona em São Paulo nem sempre funciona em Porto Alegre. É preciso pensar localmente para que a ideia dê certo, torne-se um case e se espalhe.

 

// Na agenda: evento sobre Moda e Sustentabilidade em Porto Alegre, na Fundação Iberê Camargo, 25/11 (sábado)

 

17h: bate-papo sobre upcycling

Chiara Gadaleta – criadora do movimento EcoEra

Laura Madalosso – sócia-diretora da Insecta Shoes

Taci Abreuhead de marketing da FARM

 

18h30: show da banda Flor de Sal (escute aqui: http://spoti.fi/2hzs5h2) para embalar o por do sol

 

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