MPN Entrevista • LAURA MADALOSSO, da Insecta Shoes

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Laura Madalosso é sócia-proprietária e diretora de produto da Insecta Shoes – marca brasileira de sapatos veganos com sede em Porto Alegre –, junto com Barbara Mattivy. Depois de sete anos em uma grande marca nacional de varejo, optou pelo empreendedorismo como maneira de reunir propósito e felicidade no trabalho. Em entrevista ao Mapeando Poa, ela fala sobre a importância do upcycling, de sustentabilidade na moda (na capital gaúcha e no mundo) e sobre como a transformação do consumo de roupas passa por um processo de autoconsciência.

• Quando percebeu que o diálogo entre moda e sustentabilidade era necessário?

O que  primeiro me impulsionou a perceber essa relação foi uma busca por saúde, por outro ritmo de trabalho e, especialmente, por propósito. Queria algo que me trouxesse não só dinheiro, só carreira, só lucro. Comecei a praticar yoga, meditar, ir ao encontro de uma espiritualidade, expandir a consciência. E me dei conta de que a moda tinha tudo a ver com o ritmo ao qual me submetia. A partir daí, vários questionamentos surgiram: qual o objetivo dessa aceleração, da rapidez do ciclo, das coisas que são descartáveis?

Foi uma questão pessoal que refletiu no trabalho: busca geral por felicidade. Queria conciliar propósito com as habilidades profissionais. Trabalhava há sete anos com desenvolvimento de produto e pesquisa de tendências, sendo que no último ano fui gerente do núcleo de pesquisa de uma grande marca de varejo e fast fashion. Já era muito amiga da Barbara Mattivy quando ela criou a Insecta Shoes com a designer Pam Magpali – e sempre fui muito fã dos sapatos veganos, que tinham grande apelo estético e conteúdo. Depois de um tempo, ela me chamou para ser sócia. Entrei para a Insecta em 2014.  

 

• Quais atitudes tornam o consumo de moda mais consciente?

O primeiro passo é expandir o conhecimento com relação à sustentabilidade. O Modefica, portal da Marina Colerato (que tem também canal no Youtube), é maravilhoso para isso. Tem muito conteúdo sobre veganismo, sustentabilidade, feminismo, política e outros assuntos contemporâneos. Acho que ali é possível se esclarecer, tirar dúvidas e encontrar muitas referências. Já o movimento Fashion Revolution é uma forma de se engajar. Cada cidade tem o seu núcleo, sempre em busca de novos voluntários para as ações locais, que acontecem no mês de abril. No Brasil, o projeto está muito articulado.

Para quem estiver empreendendo nesse meio, buscar informação é essencial. A Insecta tem na missão dela crescer para que que cada vez mais pessoas e empresas trabalhem a favor do meio ambiente. Então exploramos a nossa parte de conteúdo e diálogo com universidades para realmente  influenciar. Como empresa, sentimos que as pessoas que estão empreendendo têm uma carência por informação – e, por isso, gostamos de trocar. Também é legal, para quem empreende, conhecer o Sistema B, uma certificação que audita o negócio para ver quanto ele devolve para a comunidade em termos de transparência, governança e questões sociais e ambientais.

Outra dica é o Banco de Tecido, uma iniciativa muito bacana para se ter acesso a materiais de reuso de qualidade. Começou em São Paulo, com a Lu Bueno. Ela é figurinista e trocava com outros figurinistas o próprio acervo, porque estava acumulando muito material. Assim viu a oportunidade. A Insecta, por exemplo, leva o resíduo da produção de tecidos para lá. Somos “correntistas” do banco de tecidos. Nossos tecidos são avaliados em função do peso e conseguimos retirar materiais diferentes para usar nos nossos sapatos. Tem até uma menina aqui de Porto Alegre que faz pochetes e mandou fotos de produtos que ela fez com retalhos da Insecta adquiridos no banco.

• Dá para ter uma ideia sobre o futuro da moda, por esse olhar sustentável?

Acho que é um caminho sem volta. Vai ser muito legal quando moda consciente ou sustentável não for um diferencial competitivo, for apenas o básico. E estamos caminhando para isso, com muito consumidor se questionando sobre o consumo desenfreado. As pessoas estão revisitando o que precisam. De novo, é uma volta para o autoconhecimento: olhar para dentro para se entender, fazer escolhas. E a moda, como é hoje, só olha para fora, para o próximo momento. Quando a pessoa está olhando para dentro, porém, entende-se plena e vai consumir aquilo que realmente complementa o que está sentindo, o que se conecta com ela. Quando o consumidor faz esse movimento, passa a patrocinar uma ideia – o poder do consumidor está exatamente aí. Se as pessoas estão mudando, o mercado vai mudar.

 

• E o processo de upcycling? O consumidor aceita bem as peças feitas com materiais reaproveitados?

Tem uma frase do executivo da Patagonia (marca de roupas para atividades outdoor) que diz que o produto mais verde é o que já existe no mundo. E upcycling é isso. Trabalha com descarte, com aquilo que já é lixo, que não tem mais valor simbólico. Ressignifica. A primeira linha de sapatos da Insecta foi feita de roupas. Ela ainda existe, mas hoje temos também outros materiais de reciclagem e reuso. Eu acho upcycling lindo porque aumenta a vida útil do que já está disponível.

É um desafio porque é um trabalho de design muito elaborado – o resultado precisa ser “ecosexy”, trazer desejo para a peça reciclada. Sob uma ótica de empresa, conseguir girar um negócio com esse trabalho acaba sendo quase uma arte. A linha Vintage, por exemplo, é a nossa linha mais conceitual, mais especial e que nos leva a pensar fatores como exclusividade e reaproveitamento.

Quanto ao público, se ele está aberto para o universo da sustentabilidade, considera o produto upcycled mágico. No site, temos a foto do produto e do que a peça era antes. As pessoas adoram falar sobre isso, querem saber do que o sapato foi feito, se era uma camisa ou um vestido. Até engaja as pessoas em conversas e ajuda a socializar porque conta uma história: “ah, esse sapato foi feito de uma camisa!”.

 

• Como Porto Alegre se insere no contexto da moda sustentável? Quais iniciativas locais merecem destaque?

Porto Alegre está com uma cena muito forte, com inúmeras iniciativas pela cidade. Na feira MAR, que rolou semana passada, foram mais de 40 expositores de design, moda e arte. Destaco a MODAAUT, o Brick de Desapegos, as marcas que fazem parte do Coletivo 828 e a Revoada (que já está aqui há um tempão). No movimento Fashion Revolution, Porto Alegre foi a cidade mais articulada  do Brasil.  

Quanto mais gente, mais o mercado percebe a demanda por matérias-primas verdes e mais força temos para pressionar a indústria. Remar sozinho é muito  difícil, então ficamos felizes de estar em um ecossistema que está desabrochando – e bem rápido.

// Na agenda: bate-papo sobre Moda e Sustentabilidade em Porto Alegre, na Fundação Iberê Camargo, 25/11 (sábado)

 

17h: bate-papo sobre upcycling

Chiara Gadaleta – criadora do movimento EcoEra

Laura Madalosso – sócia-proprietária e diretora de produto da Insecta Shoes

Taci Abreuhead de marketing da FARM

 

18h30: show da banda Flor de Sal (escute aqui: http://spoti.fi/2hzs5h2) para embalar o por do sol

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