Meme Santo de Casa • espaço de resistência pela arte

 In para aprender, para curtir, post

“A arte é um veículo potente: ela transforma”. Com entusiasmo e um tremendo conhecimento sobre a cena artística local, Paulo Guimarães, o Laco, nos recebeu no Meme Santo de Casa Estação Cultural, iniciativa do qual é idealizador, para um bate-papo sobre trajetória, projetos e o sonho de manter Porto Alegre como um território vibrante.

Foto: Fábio Zambom

Ponto de partida: uma casa na Lopo Gonçalves, coração da Cidade Baixa

No coração da Cidade Baixa, precisamente na Rua Lopo Gonçalves, existe uma casa de portas sempre abertas às mais diversas manifestações culturais. Com a premissa de desenvolver o ser humano através do exercício da arte e da qualidade de vida, o Meme Santo de Casa reúne hoje mais de 30 profissionais responsáveis por cursos, um centro de qualidade de vida – que vai do pilates à psicoterapia –, um bistrô e um núcleo de projetos e editais. A ideia, que cresceu e ganhou cara de hub, nasceu com Paulo Guimarães, o Laco, 15 anos atrás.

“O Meme surgiu de um anseio, uma necessidade de criação. Sou um artista que começou mais tarde. Aos 27 anos, era personal trainer e tinha uma carreira, mas sempre quis dançar. Sou do interior, onde realizar esse sonho era complicado. Vim para Porto Alegre fazer uma especialização e comecei. Aos 33 anos, já era bailarino de uma grande companhia. Viajei o mundo, dei aula na universidade e comecei a receber convites para trabalhar fora do Brasil. Até que chegou o ponto de questionamento: ‘vou trabalhar fora do país, dar aula na universidade ou buscar uma linguagem, desenvolver uma ideia própria’? Não no sentido de autofagia, mas de expor o meu trabalho, produzir, criar possibilidades. Como dançarino, você é um operário, uma peça, e eu queria alguma coisa mais profunda e com identidade. Escolhi Porto Alegre como casa e comecei uma história. Eu tinha várias ideias, coisas que havia experimentado na universidade e no palco. Foram meses de reflexão até chegar ao Meme – um projeto híbrido. Uma proposta de dança que chama as outras linguagens artísticas para dentro”.

Foto: Fábio Zambom

Porto Alegre como um território fértil da cultura

Além da preocupação com o desenvolvimento de uma linguagem autoral, o Meme foi também pensado a partir de uma perspectiva de valorização da cidade. Para Laco, é clara a percepção de que aqui existe um território fértil quando o assunto é a formação de agentes culturais – que, muitas vezes, despedem-se atraídos pela efervescência dos grandes centros urbanos no país.

“O Meme surgiu dessa história de pensar Porto Alegre como um centro de cultura forte. Tem muita gente legal produzindo aqui e tem muita gente que vai embora – os grandes centros estão tomados por gaúchos na área da cultura. Então eu resolvi constituir esse espaço de compartilhamento, de arte, de trocas e trazer esse olhar sobre a cadeia de cultura, do mercado cultural. Trazer a discussão e essa proposição do fazer. Pensei muitas vezes em expor esse pensamento dentro de instituições culturais consolidadas, mas para que ela avançasse resolvi caminhar pela margem”.

E, se sobram talentos, o desafio é fomentar a cena local para que eles sejam retidos. O caminho, segundo Laco, passa pela cooperação e uma abertura à trajetória do outro. O Meme em si é uma escola para profissionais que, após passarem pela casa, seguem diferentes rumos carregando em comum a capacidade de potencializar o mercado cultural. O ponto é a alavancagem de novos negócios: expandir a cena local para atrair mais investimentos e assim fazer a cadeia girar: A política de mercado atua a partir da quantidade. Quanto mais trabalho, maior o mercado – e mais projetos chegarão. Nós precisamos uns dos outros, da ajuda dos outros, de nos divulgarmos juntos”.

A arte como ferramenta de transformação

Produzir arte é extremamente difícil. E é, também, revolucionário. O fazer artístico tem, na visão de Laco, o potencial de construir histórias e gerar conexões. Além de expressão estética, é um ferramenta de união e de autoconhecimento. Nesse ponto está o fio de conexão entre todas as coisas que acontecem no espaço: de que forma a arte atua sobre o ser humano?

“As pessoas gostam de arte, precisam de arte, pedem por arte.  A arte é um veículo potente: transforma. Fui em uma conferência recentemente que me marcou muito. O conferencista chegou nos olhando e falou: ‘O sofrimento expresso através da arte adquire o status de beleza. Vocês, artistas, atingem a alma humana com uma velocidade que nenhum outro profissional consegue”.

Com essa fortaleza em mãos, o Meme se propõe a interferir sobre as estruturas sociais. Hoje existe uma ONG em desenvolvimento, responsável por projetos como o ‘Rua da Criança’ e o ‘Aprender dançando’. Enquanto o primeiro celebra há oito outubros a infância por meio da ocupação do espaço público e da retomada do lúdico, o segundo propõe a inclusão como um exercício de cidadania desde cedo.

[Sobre o projeto Rua da Criança] “O Rua da Criança está chegando à sua oitava edição. A gente fecha a rua e reúne mais de mil crianças com pais e avós. Tem circo, dança, perna de pau, amarelinha, desenho, pular corda, tintas. O lúdico solto. As pessoas adoram! Já está no circuito e tem gente que vem de longe para viver isso. Todo Rua da Criança é feito com doações e isso vem muito de uma determinação: o exercício da colaboração, para nós, é fundamental”.

[Sobre o projeto Educar dançando] “São 20 crianças do Quilombo dos Alpes, da Vila Rubem Berta, 14 do Lar Arcanjo (vítimas de violência e abuso sexual) e 10 crianças aqui da volta – crianças de classe média, média alta. A gente bota eles juntos um turno por semana. Um dia eles têm dança, no outro capoeira, artes visuais e assim por diante. Sempre explorando o lúdico e o fato de estarem juntos apesar das realidades distintas. É um projeto de cidadania e inclusão. Para crianças não importa a formação. São apenas crianças se conhecendo e dividindo um espaço”.

É importante ressaltar que o Meme Santo de Casa é um espaço independente, que se baseia em doações e captação de recursos para executar os projetos que extrapolam sua área primária de atuação. De acordo com Laco, são iniciativas sem vaidade, criadas pela consciência de fazer parte de um sociedade desigual – e da responsabilidade que vem daí. O desejo é de que tais projetos girem de forma permanente dentro da casa, ressaltando a ideia de que pequenas ações continuadas são potentes por gerarem culturas e novas formas de agir.

A revolução passa pela cultura

“Eu não acredito em riqueza, eu acredito em cumprir funções. Eu queria fomentar mais, gerar mais. Já fazemos muitas coisas, mas gostaríamos de entregar mais para a cidade”.

Existe entusiasmo na fala de Laco e uma disposição enorme para questionar, propor novos temas, mover estruturas em diferentes esferas. O trabalho sobre a conscientização acerca do valor da arte acontece e é diário. Os espetáculos, ao mesmo tempo em que propõem um modelo de contribuição consciente (cada um paga o que julgar justo para a manutenção da atividade), levantam o debate sobre o custo desses projetos, a necessidade de perceber o artista como um profissional qualquer, inserido no mercado e dependente de recursos. E, se existem sonhos, na mesma proporção existem lutas e frentes de atuação. A vocação da casa que acolhe da dança circular ao teatro talvez seja mesmo a de resistir.

“Eu vejo o Meme como um guerreiro da resistência. A gente acredita em muitas coisas que não mais acontecem em Porto Alegre. A cultura está sendo sucateada em 3 instâncias: municipal, estadual e federal. Eu vejo o Meme resistente, tendo consciência, buscando alternativas sem perder a identidade. Existe um senso de resiliência também: resgatar o que pode estar sendo perdido. O Meme vai seguir fazendo porque existe muita coisa para ser feita”.

// Aniversário do Meme Santo de Casa: o projeto completa 15 anos esse mês. Uma linda trajetória de promoção da arte e da cultura na cidade. É importante, sempre importante, estarmos envolvidos com espaços alinhados aos nossos valores – é uma forma de apoio a essas ideias. Por isso, vale conferir no site do Meme o que está rolando. Na agenda, sempre novidades de cursos e oficinas.

// Nossa dica: o espetáculo Teresinhas, de dança contemporânea, com coreografia do próprio Paulo Guimarães. Em cartaz de 28 de abril a 6 de maio de 2018 (ingressos já à venda pelo fone 30192595).

 

Meme Santo de Casa

Facebook: /centromeme
Instagram: @memesantodecasa

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