MPN Entrevista • CAROLINA SOARES, da Minha Porto Alegre

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A política mora ao lado. A frase, em destaque no site da Minha Porto Alegre, não é dita em tom negativo: mora ao lado, sim, mas essa proximidade é muito bem-vinda. Porque convida a repensar nossas ações em prol da cidade onde vivemos, nosso engajamento, a forma como defendemos nossas causas. Acreditando na possibilidade de agir mais e esperar menos por soluções, Carolina Soares (a Sosô) e Bruno Paim fundaram uma rede de mobilização que utiliza a tecnologia para pressionar o poder público, cocriar soluções e recolocar as pessoas no posto de protagonistas do espaço urbano. E pede apenas uma credencial para quem deseja participar: ser porto-alegrense de certidão ou de coração. Sobre o projeto, Sosô conversou com o Mapeando em um encontro com ares de boa vizinhança.

• De onde vem a ideia da Minha Porto Alegre?

Sou educadora e psicopedagoga (na área da saúde mental) e sempre fui ativista. Acredito que, se as cidades estão cheias de problemas, somos nós a solução. Isso começou com a minha vó, que morava no centro de Porto Alegre. Essa parte da Duque tem três faixas de segurança, vocês viram? A minha avó morava aqui e ligava todos os dias para a Prefeitura pedindo faixa de segurança. Até que se irritaram e colocaram três! Eu brinco que a minha avó foi a precursora do “Panela de Pressão”, nossa ferramenta de enviar e-mails. Ela ligava para o vereador e dizia: “ votei em ti, quero saber o que tu estás fazendo!”. Sou assim porque via ela fazendo isso. Quando alguém, ao telefone, perguntava quem ela era, respondia: “Como quem eu sou? Sou uma eleitora!”.

Voltando ao projeto: em 2012, andei muito envolvida com a plataforma Porto Alegre como vamos? (movimento pela participação da sociedade na política) e com o projeto Meu Rio (rede de ação por um Rio de Janeiro mais democrático e sustentável). A Minha Porto Alegre surgiu há dois anos e já em 2015 participamos de um processo seletivo para integrar a rede Nossas Cidades (*notinha do Mapeando: na prática, o que o Minha Porto Alegre faz é criar mecanismos de mobilização. No caso de um cruzamento onde houve acidentes de trânsito com mortes no bairro Menino Deus, por exemplo, a equipe capitaneou uma campanha para requisitar da EPTC a construção de lombadas e a instalação de sinaleiras. E-mails para a caixa de entrada do órgão responsável e manifestações na rua foram algumas das medidas coordenadas pela rede).

 

• Quais as percepções ao longo de 2 anos de projeto?

Tem sido incrível! Conseguimos uma aproximação com grupos diferentes e com o poder público por meio do diálogo, do bom humor e da ironia, evitando a violência – tanto a da palavra quanto o confronto físico -, como um movimento apartidário e independente.

Além disso, temos 12 vitórias que vão desde a instalação da sinalização no Menino Deus, em parceria com o Vida Urgente, até conseguir incluir, em apenas 10 dias, o subtítulo “feminicidio” nos boletins de ocorrência de todo o Rio Grande do Sul. Outros exemplos são o Mapa do Acolhimento (que conseguiu fazer com que mulheres vítimas de violência sexual pudessem ter atendimento psicológico e auxílio de advogadas) e a aprovação, por meio de pressão na Câmara dos Deputados, da Lei dos Bicicletários.

Precisamos de muitas mãos, de muitos voluntários. A questão da sustentabilidade financeira ainda é difícil. É trabalhoso, mas tem sido muito recompensador ver que várias pessoas estão conseguindo seguir em frente porque fizemos uma coisa simples, que é juntar quem queria ajudar com quem precisava ser ajudado.

• Como é a Porto Alegre que tu enxergas hojes, como ativista?

Acho que Porto Alegre vive um momento político muito difícil, sem diálogo e sem escuta. A falta de consenso inviabiliza muitos projetos, gerando entraves. Há a questão da insegurança e hoje somos a 43ª cidade mais violenta do mundo. Ao mesmo tempo, temos resistido. Tem muita gente fazendo coisas bacanas e querendo ver a capital voltar a ser uma referência de cultura, de educação, de saúde. Pessoas que dizem “a solução é estar, sim, na rua!”.

A escadaria João Manoel, no centro, é um exemplo disso. Era um espaço abandonado pelo poder público e pela vizinhança. A partir do movimento de cuidar, de se apropriar, tornou-se novamente um espaço vivo. Tem criança brincando, gente tomando chimarrão, gente plantando, gente colhendo (existe uma hora comunitária no espaço). Há um movimento de cuidado apesar da incapacidade de gestão dos últimos governos.

 

• E os planos (e sonhos) para o futuro de Porto Alegre e da rede de mobilização?

O ideal seria que todos se sentissem autônomos para criar mobilizações e pressionar o poder público, sem precisar de pessoas puxando esse movimento. Mas, sendo menos utópica, em 2018 queremos proporcionar encontros. A ideia é que a gente possa ir para lugares mais distantes, mobilizar mais pessoas.

Quanto a nossos projetos, temos grandes desafios pela frente. Alguns deles: capacitar a Polícia Civil do RS e a imprensa sobre o assunto do feminicídio e pressionar o Estado para que assine o protocolo latino-americano de feminicídio. Também estamos buscando uma sede para o GAPA, Grupo de Apoio e Prevenção à Aids.

Em relação a Porto Alegre, espero que volte a ser uma capital da qualidade de vida. Que tenhamos uma melhor mobilidade, que seja uma cidade para as pessoas. Precisamos entender que somos o trânsito e que não é o trânsito que está ruim. Mais segurança, uma educação melhor (e isso implica em valorização de profissionais). Que possamos voltar a andar à noite na cidade (há quanto tempo não temos essa sensação de tranquilidade?). Gostaria de entrar nas praças para brincar com meu filho e que as pracinhas tivessem boas condições de uso, fossem acessíveis e inclusivas.

Quanto mais gente quiser a mesma coisa e se comprometer, de alguma maneira, vamos transformar a cidade. Eu brinco que não tenho religião, que acredito nas pessoas. É a religião mais difícil de seguir, pois ter fé na humanidade anda muito difícil. Todos os dias testam a minha fé! Sigo, porém, acreditando.

// Fique de olho: nas futuras ações na escadaria da Borges. Com a recém-inaugurada sede no Justo (falamos sobre o espaço aqui), a Minha Porto Alegre pretende ajudar a tornar o ponto histórico mais acessível para todas as pessoas. “Queremos fazer reunião com o Justo, com a ocupação que tem aqui perto, com a comunidade”, diz Sosô. Outro lançamento previsto para 2018 é o livro 405 Contos de Terror, indicadores do transporte coletivo em Porto Alegre, com parceria de design da Shoot the Shit. São histórias acontecidas nos ônibus da cidade (incluindo atrasos, assédios e até ataques de cobras). O objetivo é humanizar os dados sobre os usuários de transporte público, atingindo quem tem o poder de tomar decisões em relação a ele. Quem tiver alguma história de terror vivida em ônibus pode colaborar via transporte.minhaportoalegre.org.br

// Para se engajar: a estrutura do Minha Porto Alegre é enxuta. São três pessoas fixas (além dos fundadores, a coordenadora de relacionamentos Clara Alencastro) e grupos de voluntários para todas as mobilizações e para mobilizações específicas. É tudo muito dinâmico e aberto a qualquer pessoa que possa doar tempo, talento ou uma contribuição financeira a partir de R$ 15 por mês (em troca de benefícios que vão de drinks até descontos no café expresso). O contato pode ser feito pela página de FB, pelo site e pelos e-mails soso@minhaportoalegre.org.br ou contato@minhaportoalegre.org.br

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Instagram: @minhaportoalegre

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