RUA DA MARGEM • viver a Cidade Baixa para contá-la

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A vontade de revelar a história do bairro boêmio da capital foi o início de uma empreitada familiar com viés literário. Pelas palavras de Paulo César Teixeira, o site Rua da Margem propõe um olhar mais amoroso sobre Porto Alegre, tendo como ponto de partida a CB. Conversamos com Luísa Rosa, produtora executiva do site e filha do jornalista.

Paulo César Teixeira é capaz de trazer à tona pessoas e espaços desconhecidos de Porto Alegre. Por isso, foi outrora descrito como um “arqueólogo das sombras” – no melhor dos sentidos. Com textos publicados em grandes veículos nacionais, segue no site Rua da Margem o mesmo ímpeto: escrever pequenas biografias para tirar do escuro o passado e o presente. 

Histórias que contam histórias que contam histórias

Curioso por compreender a transformação da cidade, Paulo sempre aproveitou a boemia para observar e conversar com as pessoas. Foi em uma noite na Cidade Baixa que conheceu o professor Darcy Alves, cantor e violonista que acompanhava Lupicínio Rodrigues pelos bares da capital. Encantado, escreveu a biografia dele. “Foi uma oportunidade de experimentar um tom diferente de reportagem, fazendo algo semelhante a uma ficção da vida real”, relembra Luísa.

Tempos depois, foi a vez de Esquina Maldita – gueto boêmio que aglutinou artistas, hippies e ativistas políticos entre as décadas de 1960 e 1970 no Bom Fim – virar livro. “Meu pai viveu isso no fim dos anos 80 e escreveu uma biografia do lugar. Trouxe olhares e perspectivas diferentes, costurando-as em uma memória. Além disso, ao pesquisar sobre a Esquina Maldita, juntou tanto material sobre Nega Lu (bailarino que antecipou em duas ou três décadas algumas conquistas sociais e comportamentais de negros e homossexuais) que daí surgiu mais um livro.  

Lugares são como pessoas: mudam, organizam-se, precisam ser contados

Quando Paulo decidiu iniciar uma biografia da Cidade Baixa, percebeu que muitas das informações obtidas não precisavam estar no futuro livro. Queria, porém, escrever, colocar as ideias em algum lugar, deixá-las ver a luz. Foi quando a filha sugeriu que ele direcionasse esses textos à internet. Depois do primeiro pontapé, o Rua da Margem foi 98% idealizado por Paulo.

“O Rua da Margem é um espaço para falar sobre Porto Alegre a partir da Cidade Baixa. Queremos que seja um lugar onde as pessoas encontrem textos que deem carinho aos olhos. Um conteúdo que aquece e amplia a visão sobre a cidade. De pouquinho em pouquinho, dá para transformar a forma como as pessoas veem Porto Alegre”. O formato online agrada Luísa: “É importante ser um canal pequeno. Somos uma escuta e, mais do que isso, colocamos em destaque pessoas para além dos escolhidos de sempre (que aparecem na mídia tradicional gaúcha)”.

Assuntos de Porto Alegre tratados com carinho e colocados na mesa do bar

A dupla de pai e filha trabalhou com a fotógrafa Fernanda Chemale, que fez as fotos principais do site. No momento de apresentar o projeto para ela, a reação foi entusiasmada: “Porto Alegre precisava disso!”. Outros feedbacks vieram no mesmo sentido. Hoje Luísa entende que o que faltava não era um portal online, mas um olhar de orgulho em relação à cidade. Algo que vem da crença real dos dois sobre as potencialidades locais e da decisão de usar as próprias ferramentas para mexer na realidade.

 

“Existe muita força nas pessoas. Fazer coisas pela cidade é ser cidadão. E esse movimento existe, sim. Há algumas semanas, meu pai deu uma palestra no bairro Sarandi sobre um de seus livros e encontrou uma biblioteca comunitária. Foi pesquisar e descobriu que existem cerca de 15 bibliotecas desse tipo aqui, mantidas apenas pela força das pessoas. Tem também Horta Urbana, tem Minha Porto Alegre, tem muitas iniciativas que estão puxando as pessoas. Se ninguém faz pela gente, fazemos nós”.  

 

// Uma curiosidade sobre o nome do site: Rua da Margem foi o antigo nome da Rua João Alfredo, na Cidade Baixa, pois acompanhava o Arroio Dilúvio antes de desaguar no Guaíba. “A rua acolhia gente excluída da sociedade, notadamente escravos e seus descendentes, que nela inscreveram seus hábitos e rituais – o gosto pelas festas de rua, a cantoria dos botequins, as cadeiras nas calçadas, modelos de uma convivência próxima e fraterna, independente de idade, sexo ou cor”. Um de seus personagens mais lendários, hoje conhecido como “O Barão da João Alfredo“, foi entrevistado por Paulo para o site.

// Para ir além da capa: os livros de Paulo César Teixeira mencionados na matéria (Darcy Alves – Vida nas Cordas do Violão, Esquina Maldita e Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita) são publicados pela Libretos Editora e podem ser adquiridos online.

S: ruadamargem.com
FB: /ruadamargem

Fotos: Fernanda Chemale

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