MPN Entrevista • TACI ABREU, da Farm

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A head de comunicação Taci Abreu assumiu o desafio de implementar práticas sustentáveis no dia a dia da FARM (um debate trazido por André Carvalhal, que ocupou o cargo anteriormente e escreveu o livro Moda com Propósito). O momento agora é de execução: inserir a marca carioca no grupo de empresas que buscam soluções e integrar o movimento rumo a um novo caminho para a indústria. Ao lado das equipes internas e em parceria com iniciativas brasileiras que atuam em prol do meio ambiente, Taci percebe a importância de uma agenda ativa. Voluntária da Yunus Negócios Sociais, instituição que ajuda empreendedores a aumentarem seu impacto social, Taci estará em Porto Alegre no dia 25/11, para um bate-papo na Fundação Iberê Camargo. Abaixo, a entrevista dela para o Mapeando:

• Moda sustentável: é possível na prática?

Gosto muito de uma ideia da Chiara Gadaleta, do Movimento EcoEra (que também integra o time do evento na Fundação Iberê Camargo, junto com Taci e Laura Madalosso, da Insecta Shoes): ela diz que é muito difícil criarmos um produto 100% sustentável hoje, com as tecnologias e processos disponíveis. Estamos em uma era de transição e temos dependência de muitos fluxos e processos lineares provenientes da Revolução Industrial. Da produção de matérias-primas às cadeias de reciclagem, tudo ainda é antigo. De certa maneira, as novas formas de fazer estão em construção.

O raciocínio, então, é somar atributos sustentáveis aos produtos. Porque já é possível cuidar da matéria-prima e da mão de obra, mas a energia que acende o sistema não é de origem renovável na maioria dos casos. Outro exemplo: conseguimos atingir a circularidade quando desfibramos o resíduo têxtil e criamos um novo fio, devolvendo a matéria-prima para a cadeia produtiva. Mas essa tecnologia não é para qualquer resíduo e/ou fio – hoje é possível fazer isso com 100% algodão, mas não com as fibras mistas. Então existe um grande desafio industrial, motivo pelo qual queremos trazer um diálogo sobre investir em novas tecnologias. Precisamos delas para avançar. E o mercado, de uma forma mais ampla, está interessado nesse desenvolvimento.

Quanto à FARM, ela ainda se entende como uma marca nascida há 20 anos, dentro de uma lógica linear: comprar matéria-prima, produzir roupa e colocar essa roupa no mundo. O fim do produto é o descarte, infelizmente – é o que temos disponível. Por isso, estamos pensando sobre como estender a vida útil das roupas e criar alternativas ao descarte (vale conferir o vídeo que explica a parceria da FARM com o Enjoei). Não é só sobre doar: é sobre cuidar, consertar e dar vida nova a uma roupa usada, que pode ser nova para alguém. E vemos muitas atitudes de consumo consciente por parte dos consumidores: comprar menos, entender que a roupa usada é nova para quem compra. Temos olhado muito para essa consciência de aumentar o ciclo de vida dos produtos com trocas, venda de roupas usadas, de conserto de roupas. E pensando em como podemos oferecer benefícios como o conserto, para que as clientes usem a roupa por mais tempo. Tudo isso faz parte do processo de reeducação, no qual é fundamental que as marcas tragam soluções de serviço.

•  Como uma grande marca, como a FARM, pode aprofundar esse debate sobre consumo consciente?

Criamos a plataforma RE-FARM, que vem de reduzir, repensar, reciclar, reutilizar. E tem como desafio aumentar os atributos de sustentabilidade e o impacto social positivo. O RE-FARM tem alguns pilares. O primeiro é reutilização de sobras de matéria-prima e aviamento, que já usamos em coleções de bodies, de jaquetas bomber e de regatas. O segundo pilar é a sobra da roupa: a partir de agora, depois de uma peça passar por todas as liquidações ou sobrar em função de erros, irá para o upcycling – com coordenação da Gabi Mazepa, do Re-Roupa.

O terceiro pilar é o resíduo do corte. Cortamos 70% da nossa roupa e vamos passar a cortar 90% em 2018. A ideia por trás de trazer esse processo para dentro de casa é ter maior controle. Nesse ponto, temos uma parceria com a Rede Asta, que vai desenvolver produtos como almofadas com enchimento de resíduo desfibrado. Trata-se de um dos conceitos-chave da economia circular: ver o resíduo como matéria prima, onde vejo que reside o embrião da cadeia circular. Hoje, o mercado não absorve a quantidade de resíduo têxtil que é gerado. Por isso, gerar demanda por esta matéria-prima também é fundamental para avançarmos.

Em síntese, a ideia do RE-FARM é a do fazer junto: estamos fazendo junto com o Re-Roupa e junto com a Rede Asta. Queremos fazer junto com mais gente porque entendemos que a revolução é colaborativa, que ninguém dá conta sozinho – tampouco a indústria.

 

•  Como você enxerga a aceitação das peças de upcycling pelo mercado de moda?

O processo de upcycling passa pela educação do olhar da marca e do olhar do consumidor. Nesse caso, vemos uma roupa linda em seu caráter único – nenhuma combinação de peças é igual a outra, e é bem mais difícil fazer isso em escala industrial. A estética nova traz consigo uma desconstrução da roupa, da matéria-prima que foi utilizada. Passamos, com a Rede Asta e com a Re-Roupa, pelo desafio de comunicar esse desejo. Com uma qualidade tão boa quanto a da peça nova e com história e informações sobre a cadeia produtiva e a matéria-prima, a roupa é ainda mais legal!

Além disso, o processo de upcycling é fundamental porque somos uma indústria que produz muito e que por muito tempo educou as pessoas a consumirem fast-fashion. A moda está passando por um processo de questionamento: “E esse preço? Como essa roupa foi feita?”. Já recebemos críticas, dentro do Re-Farm, em relação ao valor das peças. Mas nossa resposta é que o preço baixo vem de uma cadeia que espreme o fornecedor e a mão de obra. Então, sim, o sustentável muitas vezes sai mais caro. A busca é pelo equilíbrio.

• Quem inspira o fazer da FARM? Dá para destacar algumas iniciativas no Brasil?   

As pessoas que mais nos inspiram são justamente aquelas que estão ajudando a FARM nessa transição: a Chiara Gadaleta, que fez um mapeamento da nossa cadeia produtiva para nivelar internamente “onde estamos” e “aonde queremos chegar”; a Gabi Mazepa, do Re-Roupa, a Alice Freitas, da Rede Asta, e a Zerezes, nossa parceira que faz óculos de sol lindos, éticos e sustentáveis. Tem várias iniciativas para as quais olhamos com muito carinho e que nos inspiram: o Banco de Tecidos e a Insecta Shoes são algumas delas. E mais um monte de gente que está tentando desbravar esse cenário e criar uma moda mais sustentável. A C&A é um bom exemplo de marca multinacional que vem investindo muito em tecnologia e soluções têxteis.

Acho que Porto Alegre sempre foi uma cidade que “exporta” inovação para o Brasil. Escolhemos realizar aqui bate-papo sobre upcycling porque é uma cena abundante, que está fervilhando. Belo Horizonte é outra praça que tem chamado nossa atenção nesse sentido.

 

// Na agenda: evento sobre Moda e Sustentabilidade em Porto Alegre, na Fundação Iberê Camargo, 25/11 (sábado)

 

17h: bate-papo sobre upcycling

Chiara Gadaleta – criadora do movimento EcoEra

Laura Madalosso – sócia-diretora da Insecta Shoes

Taci Abreuhead de marketing da FARM

 

18h30: show da banda Flor de Sal (escute aqui: http://spoti.fi/2hzs5h2) para embalar o por do sol

 

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